As consultas odontológicas são frequentemente associadas a sensações de medo e ansiedade, especialmente em pacientes pediátricos. Ruídos de equipamentos, cheiros característicos e a expectativa de dor podem transformar um procedimento simples em um grande desafio emocional.
Nos últimos anos, uma abordagem inovadora tem ganhado destaque: a Terapia Assistida por Animais (TAA), em especial a cinoterapia com cães. Pesquisas recentes apontam que a presença de cães treinados em consultórios odontológicos pode oferecer benefícios significativos para reduzir o medo e a ansiedade de crianças durante os atendimentos.

O desafio da ansiedade infantil no consultório odontológico
Estima-se que entre 6% e 20% das crianças apresentam ansiedade significativa ao visitar o dentista, variando conforme fatores individuais, culturais e experiências prévias. O medo odontológico pode gerar:
- Comportamento de evitação, atrasando tratamentos essenciais
- Aumento da sensibilidade à dor
- Dificuldade de comunicação entre criança e equipe odontológica
- Procedimentos mais longos e estressantes para todos os envolvidos
A ansiedade odontológica infantil se manifesta por sinais físicos (taquicardia, sudorese, tremores), comportamentais (choro, recusa de sentar na cadeira), e emocionais (angústia, medo intenso).
Para enfrentar esse quadro, dentistas adotam técnicas como comunicação positiva, contando histórias lúdicas, uso de óxido nitroso e até terapia cognitivo-comportamental. Porém, ainda havia espaço para métodos mais humanizados e integrados.
Terapia Assistida por Animais (TAA) e cinoterapia
A TAA é definida pela International Association of Human-Animal Interaction Organizations (IAHAIO) como “intervenções que incluem animais como parte integrante do processo terapêutico”. Um dos ramos mais estudados é a cinoterapia, que utiliza cães especialmente treinados para proporcionar conforto emocional, social e cognitivo a diferentes públicos, incluindo crianças.
Benefícios gerais da TAA com cães:
- Redução do estresse e da ansiedade
- Aumento da liberação de oxitocina, hormônio ligado ao vínculo afetivo
- Melhora do humor e da autoestima
- Facilitação de comunicação e confiança
Esses efeitos positivos em ambiente hospitalar e clínicas médicas motivaram pesquisadores a explorar seu potencial em odontologia, um campo até então pouco estudado na TAA.

Estudo inovador da Atitus Educação em Passo Fundo (RS)
Em abril de 2025, a Atitus Educação, em Passo Fundo (RS), divulgou uma pesquisa de doutorado pioneira no Brasil. O estudo, coordenado pelas doutorandas Juliane Taufer e Juliana Sebem, sob orientação dos professores Fernanda Ruffo Ortiz e Bernardo Antonio Agostini, avaliou 36 crianças de 5 a 12 anos em um ensaio clínico randomizado. A protagonista foi uma cadela Collie chamada Campeira.
Metodologia:
- Crianças foram alocadas em dois grupos: consultas com e sem a presença de Campeira
- Durante o atendimento, a criança podia acariciar e interagir com o cão
- Mediram-se sinais vitais (frequência cardíaca, respiratória), escalas de ansiedade e percepção de dor
- Avaliação psicossocial através de questionários validados
Resultados preliminares:
- Queda significativa nos níveis de ansiedade nos atendimentos com Campeira
- Redução da frequência cardíaca média em 15% durante os procedimentos
- Melhora na colaboração da criança, facilitando a execução do tratamento
- Percepção de menor intensidade de dor relatada pelas crianças
Segundo a dentista Fernanda Ruffo Ortiz, “comparando atendimentos com e sem o cão, observamos que as crianças ficam mais calmas, colaborativas e demonstram menos sinais de estresse”.
Exemplo internacional: Aldo, o labrador do Equador
Na Clínica Parque Dental, em Quito (Equador), um labrador de 7 anos chamado Aldo atua há quatro anos como “assistente” em odontopediatria. Treinado durante dois anos e certificado internacionalmente, Aldo entrou nas redes sociais por seu carisma. Ele:
- Acompanha crianças na sala de atendimento, deita sobre a cadeira e recebe carinho
- Distraí pequenos pacientes enquanto o dentista trabalha
- Ajuda a reduzir a fobia de agulhas e sons de broca
Relatos da equipe e dos pais indicam que, na presença de Aldo, as crianças demonstram mais sorrisos, menos choros e maior disposição a cooperar. A repercussão no Instagram e TikTok reforça o poder da cinoterapia em ambientes odontológicos, inspirando outros profissionais.
Evidências científicas sobre dor e ansiedade odontológica infantil
Um estudo brasileiro de 2022, publicado no periódico Research, Society and Development, avaliou 18 crianças de 6 a 10 anos durante duas consultas odontológicas. Utilizando escalas de dor (Wong–Baker) e ansiedade (Facial Image Scale – FIS; Venham Picture Test – VTP-M), encontraram correlação significativa entre dor e ansiedade. Concluiu-se que a dor pode exacerbar o medo infantil e comprometer o sucesso do tratamento.
A introdução de animais no cenário clínico atua justamente na diminuição tanto do desconforto físico percebido quanto na ansiedade antecipatória, gerando um ambiente mais seguro e acolhedor.
Mecanismos de ação dos cães na redução da ansiedade
- Liberação de oxitocina
A interação com cães aumenta a produção de oxitocina tanto em crianças quanto em adultos. Esse hormônio promove sensações de bem-estar, confiança e alívio do estresse. - Efeito calmante sensorial
O toque suave no pelo do animal e a respiração cadenciada dele conseguem modular o sistema nervoso autônomo, reduzindo a atividade do sistema de “luta ou fuga”. - Distração positiva
O foco da criança se desloca dos estímulos odontológicos ameaçadores (barulho da broca, cheiro de anestesia) para o animal, proporcionando relaxamento. - Construção de vínculo
Ao estabelecer relação de afeto com o cão, a criança associa a experiência odontológica a uma memória positiva, diminuindo a resistência em consultas futuras. - Melhora na comunicação
A presença do cão facilita o diálogo entre criança, pais e dentista, pois serve de quebra-gelo e ponto de referência confortável.

Prática e protocolos para adoção da cinoterapia em odontologia
Para implementar a TAA com cães em consultórios odontológicos, é fundamental seguir diretrizes que garantam a segurança e o bem-estar de todos:
- Seleção e treinamento do cão
- Raças de temperamento calmo (Labrador, Golden Retriever, Collie)
- Certificação por organismos reconhecidos de terapia assistida
- Treinamento de obediência básica e adaptação ao ambiente odontológico
- Avaliação do bem-estar animal
- Monitoramento de sinais de estresse (lingua de fora, rolagem de olhos, inquietação)
- Limitar horários de atendimento para não sobrecarregar o cão
- Espaço de descanso separado
- Higiene e biossegurança
- Banhos regulares e escovação antes de cada sessão
- Uso de mantas ou toalhas limpas sobre a cadeira
- Protocolo de lavagem de mãos antes e depois do contato
- Consentimento e preparo dos pais
- Explicar os objetivos e benefícios da cinoterapia
- Oferecer opção de recusa para casos de alergia ou medo de cães
- Obter autorização formal por escrito
- Integração na rotina clínica
- Agendamento de sessões específicas para TAA
- Treinamento da equipe para conduzir interações seguras
- Registro sistemático de dados (ansiedade, sinais vitais, feedback)
Considerações finais
A aplicação da Terapia Assistida por Animais, especialmente por meio da cinoterapia com cães, se mostra uma estratégia eficaz e humanizada para reduzir a ansiedade e o medo de crianças em consultórios odontológicos. Estudos nacionais e internacionais indicam melhorias significativas nos níveis de estresse, na percepção de dor e na colaboração das crianças durante os procedimentos.
Ao adotar protocolos adequados de seleção, treinamento e biossegurança, clínicas odontológicas podem integrar essa abordagem inovadora, oferecendo experiências mais acolhedoras e confortáveis. Além de favorecer a saúde bucal, a presença dos cães fortalece o vínculo entre paciente e equipe, criando memórias positivas que duram por toda a vida.
É fundamental, a partir de agora, incentivar mais pesquisas para consolidar evidências científicas e ampliar a aplicação da TAA na odontologia, promovendo melhores resultados clínicos e emocionais para crianças em todo o Brasil e no mundo.
Referências
- Gomes HS, Raso GF, Rosselli ER, Braz ROMC, Fernandes LA, Lima DC. Dor e ansiedade odontológica infantil: há relação? Research Society and Development. 2022;11(4):e56611427655. DOI:10.33448/rsd-v11i4.27655. Disponível em: Dor e ansiedade odontológica infantil: há relação?. Acesso em: 09 maio 2025.
- GZH. Pesquisa avalia como cães podem reduzir a ansiedade de crianças em consultas ao dentista. Disponível em: https://gauchazh.clicrbs.com.br/passo-fundo/saude/noticia/2025/04/pesquisa-avalia-como-caes-podem-reduzir-a-ansiedade-de-criancas-em-consultas-ao-dentista-cm9sh260e00cv014dyeg6rdg4.html. Acesso em: 10 maio 2025.
- CNN Brasil. Vídeo: cachorro “assistente” de dentista ajuda a acalmar crianças em consultório. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/video-cachorro-assistente-de-dentista-ajuda-a-acalmar-criancas-em-consultorio/. Acesso em: 10 maio 2025.
- Atitus Educação. Pesquisa avalia como cães podem reduzir ansiedade infantil em consultórios odontológicos. Disponível em: https://www.atitus.edu.br/noticias/pesquisa-avalia-como-caes-podem-reduzir-ansiedade-infantil-em-consultorios-odontologicos. Acesso em: 10 maio 2025.