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Investigação de Odontologia Avalia Novos Mecanismos na Progressão da Doença Periodontal

Investigação de Odontologia Avalia Novos Mecanismos na Progressão da Doença Periodontal

A doença periodontal, conhecida popularmente como “gengivite” em seu estágio inicial e “periodontite” em estágio avançado, representa uma das principais causas de perda dentária em adultos no mundo.

Recentemente, a Faculdade de Odontologia da Universidade de los Andes, liderada pela Dra. Constanza Martínez em parceria com a Universidade de la Frontera, iniciou um estudo inovador para investigar como partículas microscópicas derivadas de patógenos periodontais, conhecidas como vesículas extracelulares, influenciam a permeabilidade do epitélio gengival e a resposta anti-inflamatória nos estágios iniciais dessa enfermidade.

 estudo inovador para investigar como partículas microscópicas derivadas de patógenos periodontais, conhecidas como vesículas extracelulares,

Contextualização da Doença Periodontal

A periodontite é uma doença crônica inflamatória que afeta o periodonto — conjunto de tecidos de suporte do dente, incluindo gengiva, ligamento periodontal, cemento radicular e osso alveolar. Inicialmente, a acumulação de biofilme bacteriano sobre a superfície dentária provoca gingivite, caracterizada por vermelhidão, inchaço e sangramento gengival.

Se não tratada adequadamente, a resposta imunológica local gera destruição progressiva dos tecidos de sustentação, culminando em perda de inserção periodontal e reabsorção óssea, o que pode resultar na perda do dente.

Fases da Patogênese

  1. Acúmulo de Placa Bacteriana
    Placa é uma película adesiva de bactérias e produtos metabólicos que se forma diariamente sobre os dentes. O acúmulo excessivo desencadeia resposta inflamatória na gengiva.
  2. Gengivite Reversível
    Inflamação localizada sem destruição tecidual significativa. Com higienização adequada, há reversão completa.
  3. Transição para Periodontite
    Invasão profunda de bactérias no sulco gengival e ativação intensa do sistema imunoinflamatório, levando à degradação do colágeno e do osso alveolar.
A periodontite é uma doença crônica inflamatória que afeta o periodonto — conjunto de tecidos de suporte do dente, incluindo gengiva, ligamento periodontal, cemento radicular e osso alveolar.

Vesículas Extracelulares de Patógenos Periodontais

As vesículas extracelulares bacterianas (VEBs) são nanopartículas produzidas por bactérias Gram-negativas, como Porphyromonas gingivalis e Aggregatibacter actinomycetemcomitans. Estas vesículas contêm lipopolissacarídeos (LPS), proteínas de virulência e fragmentos de DNA/RNA que podem modular a resposta do hospedeiro.

Funções Principais das VEBs

  • Transporte de Fatores de Virulência: Proteases e toxinas que degradam componentes da matriz extracelular.
  • Modulação Imunológica: Estimulação ou supressão de células imunológicas, desequilibrando o controle local.
  • Comunicação Bacteriana: Spreading de sinalizadores de quorum sensing para coordenação de biofilmes.

Acredita-se que as VEBs desempenhem papel central na iniciação e progressão da periodontite, alterando a barreira epitelial que normalmente impede a invasão bacteriana.

Importância do Estudo em Modelos Tridimensionais

Modelos celulares bidimensionais (monocamadas) apresentam limitações para reproduzir a complexidade tecidual do periodonto. Modelos tridimensionais (3D) de cultura in vitro permitem:

  • Estrutura de Múltiplas Camadas: Replicação da organização do epitélio e tecido conjuntivo subjacente.
  • Avaliação de Permeabilidade Realística: Observação do trânsito de partículas e moléculas entre camadas.
  • Interações Celulares: Comunicação entre queratinócitos, fibroblastos e células imunes em ambiente controlado.

No estudo da UANDES, utiliza-se um biorreator de cultura 3D no qual explantes de tecido ou células recombinantes formam uma estrutura semelhante à gengiva humana.

Modelos celulares bidimensionais (monocamadas) apresentam limitações para reproduzir a complexidade tecidual do periodonto. Modelos tridimensionais (3D) de cultura in vitro

Metodologia da Pesquisa

Coleta e Preparação das VEBs

  1. Isolamento Bacteriano
    As linhagens de P. gingivalis e A. actinomycetemcomitans são cultivadas em meio específico sob condições anaeróbicas.
  2. Extração das Vesículas
    A cultura bacteriana é centrifugada a alta rotação para remover células intactas. O sobrenadante é ultracentrifugado para concentrar VEBs, que passam por diálise para purificação de componentes solúveis residuais.
  3. Caracterização Física-Química
    Técnicas de microscopia eletrônica de transmissão (TEM), espalhamento dinâmico de luz (DLS) e dosagem de proteínas confirmam o tamanho (~50–200 nm), a carga de superfície e a composição proteica.

Montagem do Modelo 3D Gengival

  1. Cultivo de Queratinócitos
    Células epiteliais oriundas de biópsias de gengiva saudável são expandidas em placa, depois transferidas para suportes permeáveis.
  2. Adição de Fibroblastos
    Sob a camada de queratinócitos, fibroblastos dérmicos são embedados em matriz de colágeno tipo I para simular o tec‐ ido conjuntivo.
  3. Condições de Diferenciação
    O sistema é mantido em cultura ar‐líquido, permitindo maturação epitelial e formação de barreira protetora.

Exposição às VEBs e Análises Funcionais

  • Ensaios de Permeabilidade
    Fluoresceína-dextran é aplicada ao topo do modelo; seu trânsito é quantificado por espectrofotometria.
  • Perfil Inflamatório
    Expressão de citocinas (IL-1β, IL-6, TNF-α) e mediadores anti-inflamatórios (IL-10) é avaliada por RT-qPCR e ELISA.
  • Viabilidade Celular e Estruturação Tissular
    Ensaios de MTT e coloração de histologia (HE) verificam toxicidade e integridade tecidual.
A cultura bacteriana é centrifugada a alta rotação para remover células intactas. O sobrenadante é ultracentrifugado para concentrar VEB

Resultados Preliminares

Embora a pesquisa ainda esteja em andamento, resultados iniciais sugerem que:

  1. Aumento da Permeabilidade Epitelial
    Modelos expostos a VEBs mostraram até 40% mais fluoresceína-dextran no compartimento basal em comparação ao controle.
  2. Resposta Pro-Inflamatória Elevada
    Houve aumento significativo (p < 0,01) de IL-1β e TNF-α após 24 horas de exposição, indicando ativação de vias inflamatórias.
  3. Modulação da Expressão de IL-10
    Observou-se também um pico de IL-10 em estágios tardios (48 horas), sugerindo tentativa de autorregulação anti-inflamatória.
  4. Alterações Morfológicas
    Microscopia eletrônica evidenciou zonas de descontinuidade nas junções celulares epiteliais, compatíveis com degradação de proteínas de adesão.

Esses achados reforçam a hipótese de que VEBs atuam como gatilhos iniciais na desestabilização da barreira gengival e no desequilíbrio entre processos inflamatórios e regenerativos.

Implicações para Prevenção, Diagnóstico e Tratamento

Potenciais Biomarcadores Iniciais

A identificação de moléculas específicas das VEBs no fluido gengival ou no saliva poderia antecipar o diagnóstico de periodontite antes da perda óssea visível em exames de imagem.

Novas Terapias Alvo-Específicas

  • Inibidores de Formação de VEBs: Compostos que bloqueiem a geminação vesicular em bactérias patogênicas.
  • Anticorpos Neutralizantes: Moleculares capazes de se ligar a LPS e proteínas de superfície das VEBs, impedindo sua ação sobre o epitélio.
  • Vacinas de Proteínas Vesiculares: Indução de resposta imune protetora contra antígenos predominantes em VEBs.

Otimização de Modelos de Teste

O protocolo de cultura 3D validado nesta pesquisa pode ser adotado por indústrias farmacêuticas para triagem de novos fármacos ou cosmecêuticos voltados à saúde gengival.

Perspectivas Futuras

  1. Estudos In Vivo
    Validar os achados em modelos animais e, posteriormente, em ensaios clínicos humanos de fase inicial.
  2. Explorar VEBs de Outras Espécies
    Analisar vesículas de Treponema denticola e Tannerella forsythia para comparar mecanismos e potenciais sinergias.
  3. Investigação de Vias de Sinalização
    Detalhar cascatas de sinalização envolvidas na indução de junções celulares, focando em proteínas como claudinas e ocludinas.
  4. Integração com Ómicas Avançadas
    Utilizar proteômica e transcriptômica para caracterizar o conteúdo molecular completo das VEBs e as alterações no epitélio.

Conclusão

A pesquisa da Universidade de los Andes representa um avanço significativo na compreensão dos mecanismos iniciais da doença periodontal.

Ao demonstrar o papel das vesículas extracelulares bacterianas na disfunção da barreira epitelial e na modulação das respostas inflamatórias, abre‐se caminho para diagnósticos precoces e terapias inovadoras que atuem diretamente nos fatores desencadeantes da periodontite.

O modelo tridimensional de cultura gengival elaborado oferece uma plataforma robusta para futuros estudos toxicológicos e farmacológicos. As colaborações entre as áreas de biologia molecular, imunologia e odontologia serão fundamentais para traduzir esses achados em soluções clínicas eficazes.

Referência

UANDES. Noticias – Investigación de Odontología evalúa nuevos mecanismos en la progresión de la enfermedad periodontal – Universidad de los Andes. Acesso em: 10 maio 2025